29 setembro 2006

Brasil, uma grande lagoa

Já na apresentação dos candidatos deu para notar a diferença. Um debate entre candidatos à Presidência da República, meus amigos, é coisa séria. Implica no mínimo num certo aplomb. E isso, tanto Alckmin como Cristovam demonstraram. Já HH... Não deixa de ser uma falta de respeito para com o eleitorado apresentar-se usando jeans e uma das famosas – pelo menos esperamos e imaginamos que não seja sempre a mesma – blusinhas brancas de babadinhos rendados. Até parece promessa para mãe-de-santo! Está certo que HH não precisaria estar vestindo Dior, Leonard nem mesmo um modelito Daspu. Mas deveria se apresentar de maneira um pouco mais condizente com o
evento que esteve vivenciando. Sua equipe de aspones deveria ter lhe contado que um debate televisivo não é a mesma coisa que o corpo-a-corpo nas ruas.

Mas, deixando de lado as críticas sobre a indumentária da top HH, acho que todos os que assistiram o debate tiveram a oportunidade de concordar com o Bufo hirsutus: a virulência da onça alagoana mal se conteve. Aliás, só não extravasou de vez por causa da ausência batraquial. Se ele ali estivesse, o Paranoá seria pequeno para tanta água e lama esparramada.

Sem a majestática presença do Bufo rex, o encontro de candidatos – mesmo porque debate, pelo menos para mim, tem uma outra conotação, algo assim como um jogo de perguntas e respostas rápidas, inteligentes, objetivas e precisas, não uma exposição de idéias em que as perguntas muitas vezes não são mais do que pequenos e delicados ganchos aproveitados para emendar explanações completamente fora do assunto proposto – até chegou a parecer um encontro de compadres. Exclua-se a comadre, uma vez que HH não fez mais do que lamentar e condenar o passado, aproveitando para atacar FHC sempre que atacava Lula, obviamente visando solapar o terreno pisado por Alckmin.

O jogo foi no mínimo interessante. Cristovam e Alckmin pareciam estar combinados, jogando no mesmo time. Um dava a deixa e o outro emendava. Bastante civilizada a atitude. Não duvido que, se milagres existirem e Alckmin chegar ao Planalto, este convide Cristovam para uma pasta. Provavelmente a da Educação, tendo em vista que é este o foco – e praticamente o único tema – da campanha do ex-reitor da UnB. Na verdade, não seria uma má aquisição.

Enfim, num balé bem orquestrado, os dois conseguiram expor minimamente seus planos de governo. Pena que o Bonner tenha sido tão exigente em questão de contagem de tempo e, com isso, acabamos – nós os telespectadores – ficando com uma desagradável sensação de coito interrompido.

Já HH mostrou bem a que veio. Sua incontestável virulência – queixa principal do Bufo pseudo-rex – transpareceu com terrível e triste nitidez. A mágoa de sua expulsão do PT saía por todos
os poros, deixando a clara impressão de que, com ela, o revanchismo seria uma meta.

Cristovam deu a tônica do encontro – recuso-me a chamar de debate – quando, ao encerrar, pediu votos para qualquer um que não seja o presidente-candidato, para que seja possível um segundo turno.

Enquanto isso, o Bufo hirsutus coaxava em São Bernardo – segundo ele, a terra onde nasceu politicamente – ao lado de todo o seu bando, incluindo dois mensaleiros: o professor Luizinho e José Mentor. Absolvidos das acusações não por uma questão de justiça, mas sim de política. Podre, evidentemente.

E entre as muitas coisas que coaxou, saiu-se com esta pérola: “Ainda vou publicar um livro sobre alguns articulistas nesses quatro anos de governo para ver a quantidade de maldades” perpetradas contra ele e sua família.

Seria interessante que fizesse isso mesmo. E que esse livro fosse realmente publicado. Porém, sem revisão e sem copy-desk. Que é para que a posteridade veja a que ponto chegamos. Eleger um presidente assim, até que passa. Num momento de revolta, de tentativa de mudança, admite-se. Mas, depois de quatro anos de desencantos e desencontros, repetir o erro... Aí, já nem mesmo é burrice. É a resignação, a admissão da incompetência de eleger.

Ou, simplesmente é uma questão de fraternidade, de espécie.
Afinal de contas, para a sapa, a coisa mais bonita do mundo é o sapo.
E, segundo as pesquisas eleitorais, pelo menos 50% do povo brasileiro pertence
ao gênero Bufo.
Bufo stultus.

27 setembro 2006

Será que há algo errado?

Na minha ingenuidade e ignorância política – aliás, justificada mesmo porque a política brasileira atual está muito mais complicada do que jamais – não consigo entender o que acontece com as pesquisas eleitorais. Tenho conversado com muita gente e a imensa maioria garante que não quer uma reprise no Planalto. Em miúdos: não vai votar no Lula. E até mesmo diversos petistas conhecidos meus são da mesma opinião, hoje em dia abominando o partido da ética, afirmando que de ético ele não tem mais nada. E permito-me indagar, para os meus botões, se um dia houve ética no PT... Mas, voltando ao assunto, se a maioria das pessoas com quem tenho conversado – e vejam bem que fazem parte de um universo que pode bem ser considerado como amostra, uma vez que são pessoas de níveis sócio-econômico-culturais bem diferentes – diz-se decepcionada com o Lula e com o PT, como é que pode o fenômeno de as pesquisas estarem apontando a possibilidade – quase certeza – de uma vitória de Lula já no primeiro turno? Será que há algo errado com essas pesquisas, ou será que a metodologia utilizada é tão esdrúxula que aponta justamente o contrário da realidade? Para ser sincero, não quero imaginar que possa haver corrupção até mesmo nisso! Porém, lembrando de que estamos vivendo no Brasil e de que estamos atravessando um período histórico que bem poderia ser chamado de Era da Corrupção, tudo se torna possível. Não pode me passar pela cabeça que indivíduos respeitáveis que me dizem votar em qualquer um menos no Lula, ao chegar a hora da urna, mudem totalmente de opinião. Mas pode-se pensar que se esteja fazendo o jogo do obstetra ladino quando ainda não havia o exame de ultrassom capaz de detectar o sexo do feto: dizia para a mãe que ela estava esperando um menino e, na ficha clínica, marcava menina; se nascesse um menino, ninguém viria fazer qualquer pergunta e ele ainda ficava com fama de profeta; mas se o Destino decidisse que viria uma menina e a mãe aparecesse para reclamar, ele simplesmente diria que ela tinha entendido errado. E mostrava a ficha clínica onde estava escrito menina. A esperança é essa. O brasileiro pesquisado pelo IBOPE, DataFolha, CNT/Sensus, Vox Populi e outros, só pode estar fazendo o jogo do obstetra: diz que vota no Lula, mas na hora H vai marcar outro. E, ao se publicar o resultado oficial da votação, o povo dará uma risadinha marota e apurará os ouvidos para tentar ouvir o canto do Bufo hirsutus ecoando ao longe. Muito ao longe do Paranoá.

29 setembro 2006

Brasil, uma grande lagoa

Já na apresentação dos candidatos deu para notar a diferença. Um debate entre candidatos à Presidência da República, meus amigos, é coisa séria. Implica no mínimo num certo aplomb. E isso, tanto Alckmin como Cristovam demonstraram. Já HH... Não deixa de ser uma falta de respeito para com o eleitorado apresentar-se usando jeans e uma das famosas – pelo menos esperamos e imaginamos que não seja sempre a mesma – blusinhas brancas de babadinhos rendados. Até parece promessa para mãe-de-santo! Está certo que HH não precisaria estar vestindo Dior, Leonard nem mesmo um modelito Daspu. Mas deveria se apresentar de maneira um pouco mais condizente com o
evento que esteve vivenciando. Sua equipe de aspones deveria ter lhe contado que um debate televisivo não é a mesma coisa que o corpo-a-corpo nas ruas.

Mas, deixando de lado as críticas sobre a indumentária da top HH, acho que todos os que assistiram o debate tiveram a oportunidade de concordar com o Bufo hirsutus: a virulência da onça alagoana mal se conteve. Aliás, só não extravasou de vez por causa da ausência batraquial. Se ele ali estivesse, o Paranoá seria pequeno para tanta água e lama esparramada.

Sem a majestática presença do Bufo rex, o encontro de candidatos – mesmo porque debate, pelo menos para mim, tem uma outra conotação, algo assim como um jogo de perguntas e respostas rápidas, inteligentes, objetivas e precisas, não uma exposição de idéias em que as perguntas muitas vezes não são mais do que pequenos e delicados ganchos aproveitados para emendar explanações completamente fora do assunto proposto – até chegou a parecer um encontro de compadres. Exclua-se a comadre, uma vez que HH não fez mais do que lamentar e condenar o passado, aproveitando para atacar FHC sempre que atacava Lula, obviamente visando solapar o terreno pisado por Alckmin.

O jogo foi no mínimo interessante. Cristovam e Alckmin pareciam estar combinados, jogando no mesmo time. Um dava a deixa e o outro emendava. Bastante civilizada a atitude. Não duvido que, se milagres existirem e Alckmin chegar ao Planalto, este convide Cristovam para uma pasta. Provavelmente a da Educação, tendo em vista que é este o foco – e praticamente o único tema – da campanha do ex-reitor da UnB. Na verdade, não seria uma má aquisição.

Enfim, num balé bem orquestrado, os dois conseguiram expor minimamente seus planos de governo. Pena que o Bonner tenha sido tão exigente em questão de contagem de tempo e, com isso, acabamos – nós os telespectadores – ficando com uma desagradável sensação de coito interrompido.

Já HH mostrou bem a que veio. Sua incontestável virulência – queixa principal do Bufo pseudo-rex – transpareceu com terrível e triste nitidez. A mágoa de sua expulsão do PT saía por todos
os poros, deixando a clara impressão de que, com ela, o revanchismo seria uma meta.

Cristovam deu a tônica do encontro – recuso-me a chamar de debate – quando, ao encerrar, pediu votos para qualquer um que não seja o presidente-candidato, para que seja possível um segundo turno.

Enquanto isso, o Bufo hirsutus coaxava em São Bernardo – segundo ele, a terra onde nasceu politicamente – ao lado de todo o seu bando, incluindo dois mensaleiros: o professor Luizinho e José Mentor. Absolvidos das acusações não por uma questão de justiça, mas sim de política. Podre, evidentemente.

E entre as muitas coisas que coaxou, saiu-se com esta pérola: “Ainda vou publicar um livro sobre alguns articulistas nesses quatro anos de governo para ver a quantidade de maldades” perpetradas contra ele e sua família.

Seria interessante que fizesse isso mesmo. E que esse livro fosse realmente publicado. Porém, sem revisão e sem copy-desk. Que é para que a posteridade veja a que ponto chegamos. Eleger um presidente assim, até que passa. Num momento de revolta, de tentativa de mudança, admite-se. Mas, depois de quatro anos de desencantos e desencontros, repetir o erro... Aí, já nem mesmo é burrice. É a resignação, a admissão da incompetência de eleger.

Ou, simplesmente é uma questão de fraternidade, de espécie.
Afinal de contas, para a sapa, a coisa mais bonita do mundo é o sapo.
E, segundo as pesquisas eleitorais, pelo menos 50% do povo brasileiro pertence
ao gênero Bufo.
Bufo stultus.

27 setembro 2006

Será que há algo errado?

Na minha ingenuidade e ignorância política – aliás, justificada mesmo porque a política brasileira atual está muito mais complicada do que jamais – não consigo entender o que acontece com as pesquisas eleitorais. Tenho conversado com muita gente e a imensa maioria garante que não quer uma reprise no Planalto. Em miúdos: não vai votar no Lula. E até mesmo diversos petistas conhecidos meus são da mesma opinião, hoje em dia abominando o partido da ética, afirmando que de ético ele não tem mais nada. E permito-me indagar, para os meus botões, se um dia houve ética no PT... Mas, voltando ao assunto, se a maioria das pessoas com quem tenho conversado – e vejam bem que fazem parte de um universo que pode bem ser considerado como amostra, uma vez que são pessoas de níveis sócio-econômico-culturais bem diferentes – diz-se decepcionada com o Lula e com o PT, como é que pode o fenômeno de as pesquisas estarem apontando a possibilidade – quase certeza – de uma vitória de Lula já no primeiro turno? Será que há algo errado com essas pesquisas, ou será que a metodologia utilizada é tão esdrúxula que aponta justamente o contrário da realidade? Para ser sincero, não quero imaginar que possa haver corrupção até mesmo nisso! Porém, lembrando de que estamos vivendo no Brasil e de que estamos atravessando um período histórico que bem poderia ser chamado de Era da Corrupção, tudo se torna possível. Não pode me passar pela cabeça que indivíduos respeitáveis que me dizem votar em qualquer um menos no Lula, ao chegar a hora da urna, mudem totalmente de opinião. Mas pode-se pensar que se esteja fazendo o jogo do obstetra ladino quando ainda não havia o exame de ultrassom capaz de detectar o sexo do feto: dizia para a mãe que ela estava esperando um menino e, na ficha clínica, marcava menina; se nascesse um menino, ninguém viria fazer qualquer pergunta e ele ainda ficava com fama de profeta; mas se o Destino decidisse que viria uma menina e a mãe aparecesse para reclamar, ele simplesmente diria que ela tinha entendido errado. E mostrava a ficha clínica onde estava escrito menina. A esperança é essa. O brasileiro pesquisado pelo IBOPE, DataFolha, CNT/Sensus, Vox Populi e outros, só pode estar fazendo o jogo do obstetra: diz que vota no Lula, mas na hora H vai marcar outro. E, ao se publicar o resultado oficial da votação, o povo dará uma risadinha marota e apurará os ouvidos para tentar ouvir o canto do Bufo hirsutus ecoando ao longe. Muito ao longe do Paranoá.